domingo, 7 de agosto de 2011

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,


Alberto Caeiro
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


8-11-1915

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
 - 88.
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.

Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas – de quê?
 
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
 
Contanto que vos embriagueis. 

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire

DEFINE SUA CIDADE

Gregório de Matos

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.
 
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.
 
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.
 
Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.


domingo, 31 de julho de 2011

Uma pequena reflexão

Lembranças... De um beijo, de um sorriso, de ter alguém perto, de sentir diversas sensações, de uma embriaguez passageira que de tão misteriosa soa eterna, desejos e rejeições desta eterna luta sem fim que é viver.

sábado, 9 de julho de 2011

Comer

Comer é um dos poucos prazeres que saciam todos os nossos sentidos por completo. Comer com a boca, comer com os olhos, comer com as mãos, com os ouvidos, comer com o cheiro, com o corpo todo, uma serie de relações carnais que beira desde a mais insana perversão e fetichismo até a personificação da divindade como carne crua e palpável.

Para os requintados franceses comer significa simplesmente focar na degustação chata e técnica de pratos sofisticados de difícil pronuncia, ou seja, ter um paladar apurado e perceber todos os aromas para chegar ao êxtase de cada tempero, de cada combinação, algo que soa como um prazer metafísico, frio e sem graça.

No Brasil a miscigenação nos proporcionou saborearmos nossas comidas como algo antropofágico, bailar no universo de diversidades de gostosas formas de exaltar a comida como celebração da identidade cultural de nosso povo como ela é: múltipla e ardente nas coisas que se propõem em fazer, assim, para o brasileiro comer têm a conotação de compartilhar sua própria vida, seu próprio corpo com o outro de forma alegre e despojada.

Mais do que uma construção social ou uma vontade/instinto animal primeiro do ser humano, comer se confunde com a própria humanidade do homem, pois, ele se percebe dentro de uma realidade constante e confusa que o faz delirar nas suas observações, divagações e convivências sensórias entre seu ser e o mundo.